quinta-feira, 24 de setembro de 2015



Recebi em casa semana passada um envelope bonito que dizia em letras garrafais "você foi contratada para fazer bicos inconstantes."

A escrivaninha de madeira tinha sido um dos primeiros itens que eu havia comprado para a minha casa. Eu sabia que mesmo que não fosse um utensílio de vital importância eu imaginava que ali seria o local dos meus expurgos. Constatei que isso fosse importante. Sobre aquela mesa de frente para a janela que pintava o céu de 22:00 mais bonito que eu já havia visto em um ano de moradia ,eu analisei aquele papel que havia recebido. A minha direita me distrai por alguns minutos com o desenho que a umidade do copo com água havia feito no guardanapo.  Achei lindo. Voltei a olhar para o papel. Peguei uma tesoura e comecei a cortar a borda. Sem muitas delongas tirei o papel principal que estava todo majestoso , com um "X" indicando aonde eu deveria assinar para compactuar com aquele serviço. Eu que sempre fui inconstante gostei da proposta,quando procurei a caneta desviei meu olhar para a janela de novo e me perdi novamente naquele céu . Apoiei as mãos no queixo e fiquei olhando como uma criança olha para algo gostoso que esta sendo cozido. Larguei a caneta e tomei uma decisão . Comecei a fazer um avião com o contrato majestoso , quando ele estava pronto abri a janela e joguei céu a fora. Por segundos observei ele indo longe.
Naquela noite eu decidi despir meu coração e deixar ele livre para amar quem quisesse e eu começaria amando aquele céu.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015



Esses dias fui diagnosticada com uma crise de abstinência de algo que nunca senti.

Sai daquele consultório com ondas enormes de pensamento na minha cabeça. Aquela água salgada que ocupava minha mente se misturava nas palavras do médico , indo e voltando , elas eram derrubadas e voltavam naquela ressaca que só limitava-se a minha cabeça. "Você já amou?". Mais uma onda. " acho que sim". Outra onda. "Você sofre de falta". Mais uma onda. "Como posso sentir falta do que não sei se tive?". Volta a onda. " ame" , ele batia o carimbo , assinava o nome em cima e mandava chamar o próximo paciente. Me vi então aqui , revivendo aquelas palavras. Me perguntei se estava passando pelo mundo vivendo ou sobrevivendo. Olhei para o céu nublado , fiquei cega por segundos com a claridade das nuvens ,a rua estava bonita vazia ,as árvores ficavam lindas no inverno , aquele inverno úmido. Decidi descalçar meus pés das milhões de meias que eu estava usando e ficar descalça , sai andando e olhando para o céu , deixando que a claridade me fizesse lacrimejar , fiquei rindo boba com as imagens que meus olhos já estavam formando. Fiquei andando quando de repente senti uma dor no pé e  percebi que eles haviam entrado em uma poça no asfalto.Olhei pra baixo , a água da chuva de ontem deixou meus pés submersos até o calcanhar. Olhei para eles brancos dentro da água , que no momento estava refletindo aquelas nuvens. Com o branco das nuvens na água se misturou o vermelho do machucado que eu havia acabado de ter na planta do pé. Achei bonita a pigmentação do sangue naquela poça d'gua. Foi a primeira vez que sangrei poesia e descobri que ela era o meu mais puro amor.

Calmaria no mar agora.