sexta-feira, 2 de outubro de 2015



Essa semana eu vi uma árvore seca na rua. Com alguns resquícios de flor , quase imperceptíveis , eu vi em minha mente um quadro imaginário que dizia nela "Aqui jaz alguém que já foi lindo." Lembrei de você.

Se eu te disser que posso provar que existe uma beleza incrível naquelas árvores que um dia já tiveram lindas flores , você me deixa fazer isso do teu lado? Veja bem , não entro em argumentações para perder , preciso estar próximo a você para te deixar ver nos meus olhos a intensidade do que falo, a viagem vale a pena e o percurso é como estar no banco de trás de um carro ,com janelas abertas e aquela vista de montanhas nubladas. Então , agora , você fecha o olho -para já já abri-lo quando eu disser- e deixa que meus pés te gelem de surpresa para você sorrir e ver que o assunto é leve. Te contarei sobre o início da primavera ,vou falar que ela vem devagar ,lentamente , dia após dia , inicialmente você nem presta atenção e quando menos espera tem belos contornos nas árvores , coloridos e exalantes de cheiro. Daqueles que te fazem esquecer do inverno que um dia houve ali. Você deve sorrir nessa hora , deve associar o que digo a lindas paixões que teve , que vieram de surpresa , daquelas sem avisar, que são as melhores possíveis. Vou me aproximar e deixar que você sinta meus lábios no seu pescoço esboçando um sorriso. Me afastarei e contarei que quando menos se espera , as flores se vão, o perfume se vai e a cor , já não fica mais tão atrativa. Talvez você se lembre de fins de paixões e isso te toque tristemente.Vou pedir que você abra seus olhos e vou olhar dentro deles , vou te falar que aqueles galhos são lindos porque esboçam a resistência do fim e a abertura ao novo. Te farei entender que as flores são epifanias e que elas vão e vem a todo momento , mas que os galhos são a firmeza mais bonita que existe. Quando eu te mostrar que serei tua resiliência em meio a esse cáos ,vou me calar e olhar por mais uns 5 segundos no teu olho, após esse tempo vou dizer que a viagem chegou ao fim , mas que se você quiser , ela pode estar só no começo .

quinta-feira, 24 de setembro de 2015



Recebi em casa semana passada um envelope bonito que dizia em letras garrafais "você foi contratada para fazer bicos inconstantes."

A escrivaninha de madeira tinha sido um dos primeiros itens que eu havia comprado para a minha casa. Eu sabia que mesmo que não fosse um utensílio de vital importância eu imaginava que ali seria o local dos meus expurgos. Constatei que isso fosse importante. Sobre aquela mesa de frente para a janela que pintava o céu de 22:00 mais bonito que eu já havia visto em um ano de moradia ,eu analisei aquele papel que havia recebido. A minha direita me distrai por alguns minutos com o desenho que a umidade do copo com água havia feito no guardanapo.  Achei lindo. Voltei a olhar para o papel. Peguei uma tesoura e comecei a cortar a borda. Sem muitas delongas tirei o papel principal que estava todo majestoso , com um "X" indicando aonde eu deveria assinar para compactuar com aquele serviço. Eu que sempre fui inconstante gostei da proposta,quando procurei a caneta desviei meu olhar para a janela de novo e me perdi novamente naquele céu . Apoiei as mãos no queixo e fiquei olhando como uma criança olha para algo gostoso que esta sendo cozido. Larguei a caneta e tomei uma decisão . Comecei a fazer um avião com o contrato majestoso , quando ele estava pronto abri a janela e joguei céu a fora. Por segundos observei ele indo longe.
Naquela noite eu decidi despir meu coração e deixar ele livre para amar quem quisesse e eu começaria amando aquele céu.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015



Esses dias fui diagnosticada com uma crise de abstinência de algo que nunca senti.

Sai daquele consultório com ondas enormes de pensamento na minha cabeça. Aquela água salgada que ocupava minha mente se misturava nas palavras do médico , indo e voltando , elas eram derrubadas e voltavam naquela ressaca que só limitava-se a minha cabeça. "Você já amou?". Mais uma onda. " acho que sim". Outra onda. "Você sofre de falta". Mais uma onda. "Como posso sentir falta do que não sei se tive?". Volta a onda. " ame" , ele batia o carimbo , assinava o nome em cima e mandava chamar o próximo paciente. Me vi então aqui , revivendo aquelas palavras. Me perguntei se estava passando pelo mundo vivendo ou sobrevivendo. Olhei para o céu nublado , fiquei cega por segundos com a claridade das nuvens ,a rua estava bonita vazia ,as árvores ficavam lindas no inverno , aquele inverno úmido. Decidi descalçar meus pés das milhões de meias que eu estava usando e ficar descalça , sai andando e olhando para o céu , deixando que a claridade me fizesse lacrimejar , fiquei rindo boba com as imagens que meus olhos já estavam formando. Fiquei andando quando de repente senti uma dor no pé e  percebi que eles haviam entrado em uma poça no asfalto.Olhei pra baixo , a água da chuva de ontem deixou meus pés submersos até o calcanhar. Olhei para eles brancos dentro da água , que no momento estava refletindo aquelas nuvens. Com o branco das nuvens na água se misturou o vermelho do machucado que eu havia acabado de ter na planta do pé. Achei bonita a pigmentação do sangue naquela poça d'gua. Foi a primeira vez que sangrei poesia e descobri que ela era o meu mais puro amor.

Calmaria no mar agora.

segunda-feira, 27 de julho de 2015




Hoje eu quero te apresentar ao inusitado , seja educado e aceite-o de bom grado no seu dia.

Nas telas de TV , nos ruídos das pessoas encobertas pelo celular , todos ecoam a mesma frase : "em tempos de frio é bom ficar dentro de casa", ficar recolhido aquilo que é cômodo , por tradução. Então , hoje , eu quero fazer assim : A gente pode combinar algumas não-premeditações se você me prometer que a partir de agora será como se você tivesse prendido a respiração . Você colocará sua roupa mais quente , virá ao meu encontro , de baixo da árvore mais coberta por umidade , a que estiver rodeada por folhas no chão , velhas ,de um falecido outono. Vai me ver apoiada nela , não vai sorrir , eu vou colocar meus braços em volta do seu pescoço , você vai me olhar diretamente nos olhos e não vai pensar em nada. A partir desse momento conte 3 segundos na sua cabeça e me beije me abraçando com todos os braços que na minha cabeça você vai parecer ter  . E quando estivermos nesse contato eu quero que você perceba aquilo que tentei te gritar em meio ao silêncio :

Que há muita liberdade por ai , nesse vazios de pessoas que insistem em acreditar na premissa logo a cima e acomodam-se em casa nesse lindo inverno.
Depois a gente pode sorrir e ver no que vai dar.

segunda-feira, 6 de julho de 2015



Eu nunca tive o costume de desenhar corações.

Nos esboços em cadernos , nos vidros de carros sujos na rua , no espelho do banheiro depois de um banho quente , nunca . Corações não . Não que eu nunca tenha me apaixonado , ou seja uma anti-amor , longe disso . Na verdade ,eu sou inteiramente paixão , inteiramente amor , sou louca por sorrisos , por olhares , por beijos , por toques , por risadas , por conversas que não são ditas por palavras , por carinho nas costas . Por aquilo que é livre , aquilo que não precisa ser dito. Aquilo que não merece ser premeditado , se não estraga. Aquilo que não é preso , aquilo que acontece , a surpresa , o de repente , a chuva sem aviso , a ventania com folhas voando , aquela onda que te pega de costas , aquele cheiro de grama molhada , o beijo sem aviso , a mão na cintura que aperta sem esperar , o olhar dentro de um olhar , a vergonha que é causada por ele -que é totalmente não premeditado, existe algo melhor que isso?- aquilo que tem o gosto da liberdade. O sabor de um sorriso , o lugar do lado da janela do avião . É por isso que eu sempre preferi estrelas , sempre as desenhei de forma incontrolável , até em locais inesperados , como com o resto do molho shoyu no prato onde estava a agora falecida comida japonesa. Eu sempre susbtitui os corações por elas , porque sim eu acho que elas representam muito melhor o sentido que o coração quer passar. Começa de um ponto , que deriva em uma reta , que vai para a frente , depois para baixo , depois de um lado depois do outro , mas não importa quantas voltas der , é um caminho reto basta segui-lo sem mistério  e no final vai ficar bom , vamos acredite , mesmo que ficar feio , vai ter alguém que vai rir daquilo , você vai gostar daquele sorriso e vocês vão ver que não haverá nada melhor do que desenhar estrelas, ver estrelas e olhar para elas depois longos beijos não premeditados. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015




O barulho dos meus pés descalços no piso da sala , quase não eram audíveis ,minha suavidade em andar que acompanhava a calma dos meus pensamentos permitia isso. Indo de um lado a outro enrolada na toalha ,a quase 20 min de embromação para tomar um banho , eu ficava sorrindo imaginando mil coisas, passava pelo tapete , pulava a mancha no lado esquerdo do piso ao lado da mesa do jantar ,sorria , parava , dava meia volta ,passava pelo mesmo lugar parava no tapete ,sorrindo ,pensando. Minha mente estava longe mas concentrada no mar de imaginações que estava imerso. Decidi deixar a ansiedade de lado e relaxar em um banho quente ,entrei no banheiro deixando que a toalha caísse sobre meu corpo ,sorrindo no mesmo compasse de tempo ,como que em um ensaio fotográfico , dando impressão da presença de mais alguém ali. Liguei o chuveiro e deixei que o vapor da água quente tomasse o banheiro . Olhei para o vidro do box e minhas mãos se sentiram instigadas a desenhar . Entrei na área do banho ,sentindo a água quente primeiro nos meus pés , me divertindo com a situação, sorria de forma incansável . Deixei que meus dedos fossem logo dar início ao trabalho levando eles aquele vidro que coberto pelo vapor ,quase implorava por arte . Comecei desenhando estrelas ,dezenas delas , em seguida desenhei um horizonte com um sol ao fundo , desenhei a profissão que terei no futuro e vários sinônimos para ela , escrevi metonímias ,muitas delas , escrevi notas que pretendo tirar seguidas de dois pontos e um parênteses , que formava um sorriso , escrevi aquilo que desejo para o mundo ,que é paz e amor também ,muito amor . Me deleitando com essa última palavra sorri e escrevi o nome da minha paixão ,seguida de um coração e do meu nome , apenas um coração pois o amor merece unidade para ter mais intensidade ,escrevi o nome da cidade da Luz que me remeteu a lua de mel , escrevi a palavra doce e logo abaixo a frase "nada de amargo" , ri . Desenhei lindas ondas e escrevi a palavra "mar" , aquilo pra mim bastou sentir quase um gosto de água salgada na boca . Desenhei símbolos musicais e cantarolei a trilha sonora de Capitu ,parei por aí .

Dei dois passos pra trás , deixando que a água caísse sobre a minha cabeça , observei minha arte sorrindo e pensando que ali naquele momento eu não mais falaria de poesia , eu deixaria que ela falasse sobre mim , pois havia descoberto que felicidade .. Era apenas uma questão de ser. Sorri.